
Mandalay, Mianmar ‒ Embora a camelô Than Than Aye tenha 50 anos, praticamente não tem rugas. O segredo? Uma pasta amarelada feita da casca de árvore moída que ela aplica nas bochechas, nariz e no pescoço após o banho da manhã e antes de ir para a cama, à noite.
Conhecido como thanakha e famoso por proteger e embelezar a pele, o creme está no rosto de todas as birmanesas assim como os sarongues coloridos, ou lungies, se encontram amarrados às suas cinturas.
'A vida inteira usei thanakha e vou continuar até morrer', diz Than Than Aye, ao lado do carrinho lotado de esmaltes, pentes e produtos de beleza que leva para vender em uma feira bem movimentada. Ritual e remédio, o preparado refresca a pele, protege contra os danos causados pelo sol e acaba com a acne; além disso, muitos dizem que, se ingerido, abaixa a febre e faz sumir a dor de cabeça.
No entanto, mesmo que a fidelidade ao thanakha venha de incontáveis gerações e tenha sobrevivido ao colonialismo inglês e às ditaduras militares, a prática tradicional está sendo ameaçada por uma nova força que há pouco invadiu Mianmar: as multinacionais de cosméticos, com campanhas publicitárias sedutoras para hidratar, empoar e besuntar os rostos das mulheres dessa nação que por tanto tempo viveu isolada.
Than Than Aye admite que os produtos de beleza coloridos e chamativos que vende são parte do problema. 'As jovens agora usam maquiagem quando saem. Todas essas marcas de cosméticos mudaram sua maneira de pensar'.
Nos três anos desde que Mianmar começou a experimentar o gostinho da democracia, depois de décadas de isolamento nas mãos da junta militar que tomou o poder em 1988, ideias novas e tendências consumistas já estão mudando facetas antigas do dia-a-dia do país.

Kuni Takahashi/The New York Times
Os outdoors, por exemplo, inexistentes onde se viam apenas templos dourados e construções coloniais decadentes, começaram a brotar junto com o frenesi de projetos de construção ‒ e muitos exibem modelos brancas segurando frascos de loções que prometem uma pele de 'tom pálido aristocrático'.
E o recado corporativo parece estar dando certo.
'Muitas garotas acham que o thanakha é pouco sofisticado, faz com que pareçam caipiras', explica Sandi Oo, de 24 anos, atrás do balcão de vidro da loja de departamentos Ocean daqui. A atendente, aliás, de base, batom rosa e rímel brilhante, é uma verdadeira propaganda ambulante dos cosméticos exibidos nas prateleiras à sua volta. E explicou que as vendedoras da loja são multadas se usarem thanakha ‒ o que não a impede de fazê-lo assim que chega em casa, como o resto da equipe. 'Sinceramente? É muito melhor que as coisas que vendemos'.
Embora seja comum em Mianmar, ou antiga Birmânia, a substância é ainda mais apreciada em Mandalay, a antiga capital, fundada em 1857 pelo último rei birmanês e que hoje abriga uma diversidade de etnias e religiões. Apesar dos confrontos recentes entre os budistas locais e as comunidades muçulmanas, o thanakha é usado ali por pessoas de todas as crenças e motivo incontestável de orgulho cultural.
A demanda originou uma pseudo-indústria, principalmente na periferia de Sagaing, centro de aprendizado budista pertinho de Mandalay, na margem oposta do rio Irrawaddy. Cheio de monastérios e templos dourados, é também destino daqueles que procuram a casca da árvore usada na sua produção.
Há pouco tempo, vi um grupo de mulheres que visitavam a luminosa Estupa Kaungmudaw fazendo fila em uma barraquinha de thanakha ‒ onde cada uma se sentava para moer um pedaço pequeno da madeira cheirosa sobre uma pedra molhada com um movimento de mão de quem prepara crepes. A seguir, espalhava o resultado nas bochechas antes que a mulher seguinte ocupasse o lugar.
Do lado de fora do círculo de árvores imensas que há no meio do pátio, dezenas de tendas estavam lotadas de pilhas de lascas de madeira. Thin Thin New, de 35 anos, com o rosto, pescoço, braços e orelhas cobertos de thanakha, disse ganhar 75 euros/mês com o negócio.
Várias gerações de birmanesas passaram a tradição adiante. Com a filha nos braços, Pyoe Pyoe, vendedor de nozes de 22 anos, disse que sua mãe utilizou o produto na criança com sete dias de vida. A devoção é institucional. Algumas escolas primárias, inclusive, exigem que as alunas usem a pasta como parte do uniforme, para mostrar que tomaram banho.
Na região seca onde fica Mandalay, ideal para plantar as árvores utilizadas no creme, os mais jovens quase sempre são vistos com grandes círculos de thanakha no rosto, embora muitos garotos adolescentes deixem de usá-lo em público para não dar a impressão de serem afeminados ‒, mas nem todos os homens rejeitam a tradição. 'Uso bem pouquinho, o suficiente para me deixar bonito', brinca Kan Htoo, trabalhador braçal de 37 anos com traços da pasta nas pálpebras e maçãs do rosto. Sua mulher, com o rosto também coberto pelo creme, aprova. 'É diferente dos outros homens, mas eu gosto', afirma.
A uma pequena distância dali, Myat Thu, de 33 anos, e sua família cuidam de mais de cem árvores que plantaram perto de suas casas ‒ e embora seus troncos mal passem dos 15 cm de circunferência, elas têm mais de vinte anos de idade. É um investimento de longo prazo, pois cada árvore é vendida pro menos de 40 euros quando alcança a maturidade. 'É muito tempo para esperar', comenta Myat Thu, as bochechas manchadas do creme, enquanto uma vaca pasta ali perto. Enquanto isso, a família vive comprando a madeira no atacado das grandes fazendas, que revende na Estupa Kaungmudaw.
Talvez para concorrer com as últimas tendências em cuidado com a pele, alguns fabricantes vendem o thanakha como um pó pronto, mas muita gente teme os efeitos colaterais dessa opção. No ano passado, duas crianças pequenas em Kansas City, no Missouri, cidade que abriga uma população birmanesa considerável, sofreram intoxicação por chumbo devido ao thanakha contaminado. Em 2012, as autoridades de Sydney pediram à comunidade birmanesa da cidade que evitasse usar produtos com thanakha depois de descobrirem que continham níveis altíssimos de metais pesados. Os pesquisadores ainda não descobriram nenhuma prova científica de que o thanakha é tão benéfico como se alega.
Apesar dos temores, ele parece ter chegado para ficar. De fato, muitas jovens birmanesas o combinam com noções ocidentais de estilo pessoal. No trabalho, Khin Mi Mi Kyaw, agente de turismo de 25 anos, usa uma leve camada nas bochechas e na testa ‒ o que lhe dá um ar moderno combinando com o piercing na sobrancelha, as mechas loiras e a flor delicada tatuada no punho esquerdo.
'Para nós, birmanesas, é uma tradição que além de proteger a pele também nos deixa bela. Por que não usar?', questiona.
The New York Times News
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